Liga Acadêmica de Cirurgia Geral · UniNove Mauá

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Sutura simples de ferida cutânea

Ambulatório Atenção primária (UBS)

Fechamento primário de ferida cutânea limpa, com bordas regulares e sem perda tecidual significativa. Procedimento fundamental da atenção primária e da sala de sutura.

Antes de ler: este material é de apoio ao ensino e não substitui treinamento supervisionado. Nenhum procedimento aqui descrito deve ser realizado sem indicação clínica e supervisão de profissional habilitado.

Indicações

  • Ferida cutânea limpa ou limpa-contaminada, com bordas regulares e viáveis.
  • Ausência de perda tecidual que impeça aproximação sem tensão.
  • Tempo desde o trauma geralmente inferior a 6 a 8 horas em tronco e membros; em face, o prazo é mais permissivo pela vascularização abundante.
  • Ausência de sinais flogísticos ou secreção purulenta.

Contraindicações

Absolutas ao fechamento primário: ferida já infectada, com secreção purulenta ou tecido desvitalizado extenso não desbridável.

Relativas: mordeduras — sobretudo de gato e em mão, onde o fechamento primário aumenta risco infeccioso e frequentemente se opta por cicatrização por segunda intenção ou fechamento primário tardio. Corpo estranho retido, ferida profunda com espaço morto significativo e feridas em paciente imunossuprimido também exigem reavaliação da estratégia.

Material

ItemEspecificação
AntissepsiaClorexidina alcoólica 0,5% ou PVPI tópico na pele perilesional
IrrigaçãoSoro fisiológico 0,9%, seringa de 20 a 60 mL, cerca de 50 a 100 mL por centímetro de ferida
AnestésicoLidocaína 1% ou 2%, com ou sem vasoconstritor
InfiltraçãoSeringa de 5 ou 10 mL, agulha 30G ou 27G
InstrumentalPorta-agulha, pinça dente de rato, tesoura de Iris ou Metzembaum, campo fenestrado
FioVer tabela por região, adiante

Doses máximas de lidocaína: 4,5 mg/kg sem vasoconstritor e 7 mg/kg com vasoconstritor. Lidocaína a 1% contém 10 mg/mL; a 2%, 20 mg/mL. Para um adulto de 70 kg sem vasoconstritor, o teto é aproximadamente 31 mL da solução a 1%. Sinais precoces de toxicidade sistêmica incluem parestesia perioral, gosto metálico, zumbido e agitação.

Escolha do fio por região

RegiãoFioRetirada dos pontos
Face e pálpebraNylon 5-0 ou 6-04 a 6 dias
Couro cabeludoNylon 2-0 ou 3-0, ou grampos7 a 10 dias
TroncoNylon 3-0 ou 4-07 a 12 dias
Membros superiores e mãosNylon 4-0 ou 5-07 a 10 dias
Membros inferioresNylon 3-0 ou 4-010 a 14 dias
Sobre articulaçãoNylon 3-010 a 14 dias

Anatomia e avaliação prévia

A avaliação neurovascular e tendínea precede a anestesia — depois do bloqueio, o exame perde valor. Documente motricidade, sensibilidade e perfusão distais antes de qualquer infiltração. Em feridas de mão, teste cada tendão flexor e extensor isoladamente; em face, avalie a integridade do nervo facial e do ducto parotídeo em lacerações da região malar.

Sobre vasoconstritor em extremidades: a proibição clássica em dedos, nariz, orelha e pênis vem sendo revista, e há evidência consistente de segurança da lidocaína com epinefrina em dedos de pacientes sem doença vascular. Ainda assim, na ausência de familiaridade com a técnica, a conduta prudente na atenção primária é usar solução sem vasoconstritor nessas regiões.

Passo a passo

  1. Avaliação e documentação. Exame neurovascular e tendíneo distal, registro do mecanismo e do tempo de lesão, checagem do estado vacinal antitetânico.
  2. Posicionamento e antissepsia. Paciente confortável, ferida acessível e bem iluminada. Antissepsia da pele perilesional; evite despejar antisséptico alcoólico dentro da ferida.
  3. Anestesia. Infiltração a partir das bordas da ferida, com agulha fina, injetando lentamente durante o avanço. Aguarde a latência antes de testar. Bloqueio digital ou de campo quando a região favorecer.
  4. Irrigação. Soro fisiológico sob pressão moderada, em volume generoso. É a etapa que mais reduz infecção — não a abrevie.
  5. Inspeção e desbridamento. Explore toda a extensão e profundidade em busca de corpo estranho. Desbride apenas tecido claramente inviável, de forma econômica, sobretudo em face.
  6. Sutura. Entrada da agulha perpendicular à pele, a cerca de 3 a 5 mm da borda. Pegada simétrica dos dois lados, com profundidade igual, para evitar degrau. Pontos equidistantes e sem tensão. Everta as bordas: a cicatriz achata com o tempo, e borda invertida deixa depressão permanente.
  7. Nós. Lateralize o nó em relação à linha de sutura. Aperte o suficiente para aproximar, nunca para estrangular — o edema das próximas horas fará o resto.
  8. Curativo. Cobertura estéril não aderente. Oriente sobre limpeza, sinais de alarme e data de retorno.

Complicações e manejo

ComplicaçãoReconhecimentoConduta
InfecçãoDor crescente após 48h, eritema em expansão, secreção purulenta, febreAbrir pontos, drenar, irrigar, cicatrização por segunda intenção; antibiótico conforme extensão
DeiscênciaAbertura das bordas após retirada dos pontosAvaliar tensão e infecção; reaproximar se assepsia permitir, ou por segunda intenção
Necrose de bordaBordas escurecidas nas primeiras 48 horasSinal de tensão excessiva ou nó apertado; retirar pontos alternados
Lesão despercebidaDéficit motor ou sensitivo identificado no retornoEncaminhamento imediato ao especialista
Cicatriz hipertróficaCicatriz elevada e endurecida após semanasProteção solar, silicone tópico, avaliação especializada se progredir

Cuidados pós-procedimento

  • Manter curativo limpo e seco nas primeiras 24 a 48 horas.
  • Profilaxia antitetânica conforme situação vacinal e características da ferida.
  • Antibiótico não é rotina em ferida limpa suturada.
  • Orientar retorno imediato diante de dor progressiva, vermelhidão em expansão, secreção ou febre.
  • Fotoproteção da cicatriz por seis meses, especialmente em face.

Referências

  1. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica — procedimentos. Brasília.
  2. Townsend CM et al. Sabiston Textbook of Surgery. Capítulo de cicatrização e manejo de feridas.
  3. Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Orientações sobre manejo de feridas agudas.

Redação: nome do ligante* · Revisão técnica: nome do cirurgião docente* · Última revisão: mês/ano*

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