Indicações
- Coleção purulenta com flutuação à palpação, superficial e acessível.
- Abscesso sem flutuação evidente mas com ultrassonografia demonstrando coleção organizada.
- Ausência de sinais sistêmicos graves que indiquem manejo hospitalar.
Celulite sem coleção não se drena — trata-se com antibiótico. A distinção entre celulite e abscesso é o ponto de decisão mais importante, e a ultrassonografia à beira do leito resolve os casos duvidosos.
Contraindicações e encaminhamento
Devem ser encaminhados, e não drenados na atenção primária:
- Abscessos do triângulo perigoso da face, pelo risco de disseminação para o seio cavernoso.
- Abscessos de mão, sobretudo palmar e de bainha tendínea.
- Abscessos perianais e perirretais, pela possibilidade de extensão profunda e fístula.
- Coleções sobre trajetos vasculares ou nervosos maiores.
- Suspeita de fasciíte necrosante: dor desproporcional ao exame, crepitação, bolhas hemorrágicas, toxemia. É emergência cirúrgica.
Material
| Item | Especificação |
|---|---|
| Antissepsia | Clorexidina alcoólica 0,5% ou PVPI |
| Anestésico | Lidocaína 1% ou 2%; considerar bloqueio de campo perilesional |
| Incisão | Lâmina de bisturi nº 11, cabo nº 3 |
| Exploração | Pinça hemostática curva (Kelly) |
| Irrigação | Soro fisiológico 0,9%, seringa de 20 mL |
| Drenagem | Dreno de Penrose ou gaze, quando indicado |
| Coleta | Frasco para cultura, nos casos selecionados |
Limitação anestésica: o pH ácido do tecido inflamado reduz a eficácia dos anestésicos locais, e a infiltração dentro da cavidade é dolorosa e pouco eficaz. Prefira bloqueio de campo na pele íntegra ao redor da lesão e avise o paciente de que algum desconforto é esperado.
Passo a passo
- Delimitação. Palpe e marque o ponto de maior flutuação. Avalie extensão e profundidade; use ultrassom se disponível.
- Antissepsia e campo. Preparo amplo da pele ao redor, campo fenestrado.
- Anestesia. Bloqueio de campo na pele perilesional íntegra, em losango ao redor da coleção.
- Incisão. Sobre o ponto de maior flutuação, acompanhando as linhas de tensão da pele. Extensão suficiente para drenagem ampla — incisão econômica é a principal causa de recidiva.
- Exploração digital ou instrumental. Introduza a pinça hemostática fechada e abra dentro da cavidade, em várias direções, para desfazer loculações. Este é o tempo que define o sucesso do procedimento.
- Irrigação. Soro fisiológico até retorno claro.
- Drenagem. Não feche a cavidade primariamente. Em abscessos maiores, dreno de Penrose fixado à pele. Para abscessos pequenos, evidência recente questiona o benefício do tamponamento com gaze, que aumenta a dor sem reduzir claramente a recidiva.
- Curativo absorvente e orientação de retorno.
Antibioticoterapia
A drenagem é o tratamento. Antibiótico sistêmico é adjuvante e não substitui o procedimento. Está indicado quando houver:
- Celulite extensa ao redor da coleção.
- Sinais sistêmicos: febre, taquicardia, toxemia.
- Imunossupressão, diabetes descompensado ou extremos de idade.
- Abscessos múltiplos, recidivantes ou em face e mão.
- Falha de drenagem prévia.
A cobertura deve contemplar Staphylococcus aureus, incluindo cepas resistentes à meticilina conforme o perfil epidemiológico local. A escolha do esquema e da posologia cabe ao médico assistente, considerando alergias, função renal e resistência regional.
Complicações e manejo
| Complicação | Reconhecimento | Conduta |
|---|---|---|
| Drenagem incompleta | Persistência de dor e flutuação após 48h | Reabordagem com incisão ampliada e desfazimento de loculações |
| Recidiva | Retorno da coleção em semanas | Investigar cisto epidérmico residual, hidradenite ou colonização; considerar exérese eletiva da cápsula |
| Sangramento | Sangramento arterial durante a incisão | Compressão; se persistir, ligadura e avaliação cirúrgica |
| Lesão de estrutura nobre | Déficit motor ou sensitivo novo | Encaminhamento imediato |
| Progressão para fasciíte | Dor desproporcional, crepitação, toxemia | Emergência cirúrgica; encaminhamento hospitalar imediato |
Cuidados pós-procedimento
- Retorno em 48 horas para reavaliação e troca de curativo.
- Retirada do dreno conforme redução da drenagem, geralmente entre 48 e 72 horas.
- Analgesia simples e higiene local com água e sabão após as primeiras 24 horas.
- Sinais de alarme para retorno imediato: febre, vermelhidão em expansão, dor crescente.
Referências
- Stevens DL et al. Practice Guidelines for the Diagnosis and Management of Skin and Soft Tissue Infections. Infectious Diseases Society of America.
- Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica — procedimentos na atenção primária.
- Townsend CM et al. Sabiston Textbook of Surgery. Capítulo de infecções cirúrgicas de partes moles.
Redação: nome do ligante* · Revisão técnica: nome do cirurgião docente* · Última revisão: mês/ano*