Liga Acadêmica de Cirurgia Geral · UniNove Mauá

Biblioteca de procedimentos

Toracostomia com drenagem fechada em selo d’água

Sala vermelha

Drenagem pleural por toracostomia, procedimento central da sala vermelha no manejo de pneumotórax e hemotórax traumáticos.

Antes de ler: este material é de apoio ao ensino e não substitui treinamento supervisionado. Nenhum procedimento aqui descrito deve ser realizado sem indicação clínica e supervisão de profissional habilitado.

Indicações

  • Pneumotórax hipertensivo, após a descompressão inicial.
  • Pneumotórax aberto, após curativo de três pontas.
  • Hemotórax traumático.
  • Pneumotórax em paciente que será submetido a ventilação com pressão positiva ou transporte aéreo.
  • Derrame pleural volumoso ou empiema, em contexto não traumático.

Pneumotórax hipertensivo é diagnóstico clínico, não radiológico. Desconforto respiratório grave, hipotensão, timpanismo, ausência de murmúrio vesicular, desvio de traqueia e turgência jugular indicam descompressão imediata — não se aguarda radiografia. A drenagem definitiva vem em seguida.

Contraindicações

Não há contraindicação absoluta na emergência com indicação estabelecida. São contraindicações relativas, que exigem cautela e reavaliação do local de punção: coagulopatia grave, aderências pleurais conhecidas, infecção da pele no sítio de inserção e suspeita de hérnia diafragmática com vísceras no tórax — situação em que a introdução às cegas pode lesar alça intestinal.

Material

ItemEspecificação
ParamentaçãoGorro, máscara, óculos, avental e luvas estéreis
AntissepsiaClorexidina alcoólica, campos estéreis
AnestésicoLidocaína 1% ou 2%, volume generoso para pele, periósteo e pleura parietal
InstrumentalBisturi com lâmina 20 ou 21, pinça Kelly curva grande, porta-agulha, tesoura
DrenoTubular multiperfurado — 28 a 32 Fr para hemotórax; calibres menores aceitáveis no pneumotórax isolado
ColetorSistema fechado em selo d’água
FixaçãoFio inabsorvível 0 ou 2-0, curativo

Anatomia relevante

O triângulo de segurança é delimitado pela borda lateral do peitoral maior, pela borda anterior do grande dorsal e por uma linha horizontal ao nível do mamilo, tendo o ápice na axila. O ponto de inserção é o quarto ou quinto espaço intercostal, entre as linhas axilares anterior e média.

O feixe vasculonervoso intercostal corre no sulco da borda inferior de cada costela. Por isso a penetração se faz rente à borda superior da costela inferior do espaço escolhido. Inserções abaixo do quinto espaço aproximam-se perigosamente do diafragma, do fígado à direita e do baço à esquerda.

Passo a passo

  1. Preparo. Monitorização, oxigênio, acesso venoso, analgesia. Confirme o lado pelo exame físico e pela imagem disponível. Marque o lado.
  2. Posicionamento. Decúbito dorsal, membro superior do lado afetado abduzido e a mão sob a cabeça, expondo a axila.
  3. Antissepsia e campos. Preparo amplo, campos estéreis. Paramentação completa.
  4. Anestesia. Infiltre pele, tecido subcutâneo, musculatura, periósteo da costela e, sobretudo, a pleura parietal — a estrutura mais sensível do trajeto. Aspire durante o avanço; retorno de ar ou sangue confirma a profundidade da cavidade.
  5. Incisão. Dois a três centímetros, paralela ao trajeto da costela, no espaço escolhido.
  6. Divulsão. Com a pinça Kelly fechada, avance pelos planos musculares rente à borda superior da costela inferior, abrindo a pinça a cada avanço. A entrada na pleura costuma ser percebida como uma perda de resistência, com saída de ar ou sangue.
  7. Digitoclisia. Introduza o dedo indicador na cavidade para confirmar o espaço pleural, sentir o pulmão e afastar aderências ou vísceras. Esta etapa não deve ser suprimida — é o que evita a introdução do dreno em local errado.
  8. Introdução do dreno. Guiado pela pinça, direcionado posterior e superiormente. Garanta que todos os orifícios laterais estejam dentro da cavidade pleural.
  9. Conexão ao selo d’água. Observe oscilação da coluna líquida com a respiração e borbulhamento, que confirmam o posicionamento.
  10. Fixação e curativo. Ponto de fixação à pele e ponto em bolsa preparado para o fechamento na retirada. Curativo oclusivo.
  11. Radiografia de controle. Obrigatória, para confirmar posição do dreno e expansão pulmonar.

Sinais de gravidade após a drenagem

Débito inicial volumoso ou sangramento persistente pelo dreno sugere lesão vascular significativa e indica avaliação cirúrgica imediata para eventual toracotomia. A decisão é do cirurgião assistente, considerando o débito inicial, o ritmo de perda nas horas seguintes e a estabilidade hemodinâmica do paciente.

Complicações e manejo

ComplicaçãoReconhecimentoConduta
Lesão de órgão abdominalInserção baixa; saída de conteúdo atípico; dor abdominalNão retirar o dreno; avaliação cirúrgica imediata
Lesão do feixe intercostalSangramento arterial pela incisãoCompressão, revisão cirúrgica da ferida
Mau posicionamentoAusência de oscilação; dreno subcutâneo ou intrafissural na radiografiaReposicionamento; nunca reintroduzir dreno já exteriorizado
Edema de reexpansãoTosse, dispneia e hipoxemia após drenagem rápida de grande volumeSuporte ventilatório; prevenir com drenagem gradual em derrames volumosos
EmpiemaFebre e secreção purulenta após diasAntibioticoterapia e avaliação cirúrgica
Fuga aérea persistenteBorbulhamento contínuo além do esperadoInvestigar lesão brônquica; avaliação especializada

Cuidados após o procedimento

  • Sistema coletor sempre abaixo do nível do tórax.
  • Registro do débito e do aspecto a cada plantão.
  • Analgesia adequada — dor mal controlada compromete a expansão pulmonar.
  • Fisioterapia respiratória precoce.
  • Retirada conforme critérios clínicos e radiológicos, definidos pelo cirurgião assistente.

Referências

  1. American College of Surgeons. Advanced Trauma Life Support — Student Course Manual. Capítulo de trauma torácico.
  2. Colégio Brasileiro de Cirurgiões. Diretrizes em trauma torácico.
  3. Mattox KL, Moore EE, Feliciano DV. Trauma. Capítulo de lesões torácicas.

Redação: nome do ligante* · Revisão técnica: nome do cirurgião docente* · Última revisão: mês/ano*

Revisão técnica: Professor x